O príncipe pode tudo e não pode nada

Os fins - não - justificam os meios

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Nicolau Maquiavel, autor de O Príncipe, um tratado sobre como fazer política. Imagem livre

É atribuído ao filósofo, músico, diplomata, historiador e poeta Nicolau Maquiavel, pai do pensamento e da ciência política moderna, uma frase que não é dele.

Um pensador francês certa feita falou que é preciso contar a História o tempo todo, geração em geração.

E tudo de novo, de novo, de novo e de novo, porque ninguém lê.

Com o advento da internet a preguiça tomou de vez o lugar da curiosidade e da busca pelo conhecimento.

É mais fácil perguntar do que pesquisar ou ler.

A frase que popularizou essa corruptela que o pensador jamais escreveu ou proferiu é, “Os fins justificam os meios”.

Sinaliza que para alcançar um determinado objetivo qualquer ação é válida.

No campo político, propósito principal do livro, é muito comum.

Passando por subornos, destruição de reputações, prisões ilegais, golpes de Estado, espionagem, disseminação de notícias falsas e assassinatos.

Por dinheiro e prestígio, tudo é permitido nesta selva de insanos.

Lembram da frase muito comum no Brasil: ele rouba, mas faz.

E corrupção não é um problema só dos países subdesenvolvidos.

Os Estados Unidos fizeram fama e fortuna bancando crimes e corrupções pelo mundo afora. 

Como escreveu um jornalista de economia, “por dinheiro e poder, meu país já vendeu a alma ao diabo diversas vezes”.

Como esquecer dos embargos econômicos contra outros países.

Uma ação criminosa que não atinge o sistema de governo, mas o povo. Principalmente a parte mais vulnerável da sociedade.

Segundo uma vasta pesquisa feito pelo jornalista e escritor J.S.Davies e publicada em 2014, Washington derrubou governos legítimos através de golpes de Estado, apoiou ditaduras e participou de massacres e genocídios. 

O mesmo país que condena e esbraveja contra a agressão russa aos ucranianos é o mesmo que impõe um embargo contra Cuba e Venezuela. 

Que vende armas para ditaduras e apoia descaradamente massacres como faz a Arábia Saudita contra o povo do Iêmen ou Israel contra os palestinos.  

Como não lembrar do ex-funcionário terceirizado da Agência de Segurança dos Estados Unidos (NSA), Edward Snowden, revelando o esquema de espionagem do governo contra cidadãos comuns, corporações estrangeiras e lideranças internacionais.

Acha pouco?

Logo depois da Segunda Guerra Mundial, os EUA deram proteção e emprego para ex-oficiais da SS e membros da Gestapo, como foi o caso de Rudolf Mildner.

Para autoridades do país, segundo relatórios da CIA e das forças armadas, Rudolf era “muito confiável e cooperativo”.

O sujeito “confiável e cooperativo” foi responsável pela morte de 500 a 600 poloneses no campo de concentração de Auschwitz.

Outro que recebeu proteção e até emprego do tio Sam, foi o açougueiro de Lyon, Klaus Barbie, oficial da SS.

Responsável pela deportação de quatro mil judeus para os campos de concentração e o envio de 44 mil crianças órfãs para as câmaras de gás de Auschwitz.

Não existe barreiras para a maldade humana. O desvio de caráter não é encontrado apenas nas periferias do mundo.

A maldade não tem cor, sexo, idade, nacionalidade, altura ou poder aquisitivo.

Pelo vil metal, interesses políticos e poder, pequenos ou grandes, ricos ou pobres, são capazes de qualquer coisa.

O chamado “lobby” (leia-se corrupção) no Congresso dos Estados Unidos já se transformou em algo institucionalizado.

Uma ação exercida sobre algum poder da esfera política para obter vantagem em alguma causa ou apoio em alguma decisão.

É uma atividade que pode ser feita tanto por grupos civis, que circulam livremente pelos corredores do Congresso dos Estados Unidos, quanto por grupos profissionais que representam os interesses de grandes corporações, partidos políticos e grupos empresariais.

Neste bojo podemos colocar empresas de refrigerantes, fabricantes de armas, companhias de seguro de saúde e corporações farmacêuticas.

Acreditar que o problema do Brasil são os políticos e que em outros países são todos de reputação ilibada é ignorância.

Aquilo que Maquiavel abordou em seu livro poderia ser aplicado a destruição do devido processo legal profanado pelos procuradores de Curitiba e pelo ex-juiz Sérgio Moro revelados pelo The Intercept Brasil e parceiros.

A lava jato, que se transformou num braço político, foi responsável pela quebra de grandes construturas do país, sendo cinco da construção pesada, que provocaram mais de 270 mil desempregos e afetaram a vida de mais de dois milhões de pessoas.

Na Alemanha, pós Segunda Guerra, vários executivos, cientistas e empresários foram presos e condenados pela colaboração com o regime nazista. Nenhuma empresa parou de produzir ou faliu e nenhum trabalhador perdeu o emprego.

No Brasil, além da destruição da construção civil, nenhum grande executivo está preso.

Um dos casos emblemáticos é o de Pedro José Barusco, ex-gerente de serviço da Petrobras.

O sujeito roubou mais de R$ 300 milhões, pegou 20 anos de cadeia, fez um acordo de delação sem apresentar nenhuma prova, devolveu em torno de R$ 157 milhões e foi para casa em Angra dos Reis com mais de R$ 100 milhões no bolso.

Não existe justiça sem direito. Não existe direito sem justiça.

Não estou aqui para condenar ou absolver. Não estou aqui para defender ou acusar. Não estou aqui para julgar. Estou aqui em defesa do Estado de Direito. Em Defesa da Legalidade”.

Justiça Federal, Polícia Federal e Ministério Público são instituições de Estado e não de um partido ou de um presidente, que precisam simplesmente cumprir a lei, serem servos da lei.

A transgressão, o não cumprimento em alguma medida da lei e da ordem, é uma das bases do texto de Maquiavel.

Tanto, que o termo ‘maquiavélico’ tornou-se um adjetivo usado para qualificar pessoas sem escrúpulos, traiçoeiras, mentirosas e sem respeito pelas instituições e pelas leis.

Maquiavel não estava manifestando uma sentença moral, estava sendo realista.

A política não tem relação com a moral”.

O livro foi escrito em 1513 e publicado em 1532, depois de sua morte, ocorrida em 1527.

O autor estava incomodado com a ideia de ver sua Florença governada por um príncipe, no caso Lorenzo de Medici.

Diante das circunstâncias, teve que se conformar e resolveu buscar um meio de se aliar ao novo líder para conseguir uma posição política.

Foi neste contexto que ele escreveu O Príncipe, que se tornaria com o decorrer do tempo num clássico da literatura universal.

O livro revela que a política é um movimento pelo poder e pela manutenção absoluta deste mesmo poder sem medir consequências.

Não importa os valores morais impostos pela igreja e pela sociedade.

Um príncipe (vale para qualquer cargo político), não é sempre pérfido, mas deve saber conquistar favores como um bom articulador para manter seu poder e expandir seu domínio.

Na visão de Maquiavel, um ser virtuoso deve saber o momento preciso para agir e de não fazer nada, sem permitir margem para a fortuna (sorte).

Para salvar o Estado, um governante deve saber ser mau – é preciso ter “elegância” e sabedoria – mentindo ou parecendo piedoso se a situação assim exigir pela segurança e “bem estar de seu povo”.

Para o pensador, a crueldade seria justificável e bem usada para um sentido maior.

Somos egoístas por natureza e nossa lealdade pode sofrer alterações de uma hora para a outra.

Maquiavel acreditava que o amor é mantido por vínculos de gratidão que se rompem quando deixam de ser necessários.

O ensaio tinha a pretensão de mostrar que o papel principal da política era manter a estabilidade de Florença a todo custo.

Vale lembrar que naquele período, a Itália vivia em guerras e disputas territoriais, fragmentada e com o poder paralelo da igreja.

Muitos estudiosos enxergam este texto como diabólico e ardiloso. 

Ao ler O Príncipe mais uma vez – e lá se vão algumas dezenas! -, lembrei de um pensamento de Voltaire: “O segredo de aborrecer é dizer tudo”.

 

Gerald D

O gremista Gerald D escreve sobre artes, literatura, futebol e política com muita propriedade e consciência, o que reflete o seu gosto apurado pela boa leitura

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