O tiro pela culatra

Gérson foi um dos mais geniais jogadores do futebol mundial

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O 'Canhotinha de Ouro', comandou o São Paulo e a seleção brasileira de 1970
Time do São Paulo em 1970. Em pé: Adailton, Sérgio Valentim, Gilberto, Edson, Jurandir e Pablo Forlán. Agachados: Paulo nani, Terto, Pedro Rocha, Gérson e Paraná. Fotos: SPFC

A construção do Estádio do Morumbi, foi o que se costuma chamar de obra de igreja. A construção durou 18 anos para ser finalizada, começou em 1952 e terminou em 1970. Foi um período de seca de títulos para o São Paulo Futebol Clube, que investia todo o dinheiro na construção do estádio. Para não ficar totalmente zerado, o clube conquistou o campeonato paulista de 1957. No final de 1969, com o estádio quase concluído, o tricolor paulista começou a montar um time digno do novo estádio e jogadores de alto nível como Gérson, Toninho Guerreiro e os uruguaios Pablo Forlan e Pedro Rocha foram contratados. A venda de Gérson, provocou revolta na torcida botafoguense contra a diretoria e contra ‘Canhotinha de Ouro’. A torcida não perdoou Gérson por ter trocado o Botafogo pelo São Paulo.

A primeira partida disputada entre Botafogo x São Paulo, depois da saída de Gérson aconteceu no Maracanã, pela Taça de Prata de 1970. Quando o São Paulo pisou no gramado do Maracanã, a torcida alvinegra disparou uma vaia ensurdecedora contra Gérson. A bola rolou e o inferno astral de Gérson continuou cada vez que ele tocava na bola, para a torcida gritar “é esse, é esse”. O zagueiro Moisés do Botafogo, conhecido como ‘Xerife’, comprou a ideia da torcida e resolveu caçar o ‘Canhotinha’. Tentava de todas as formas entrar para quebrar o meio-campista do São Paulo, ex-ídolo alvinegro. Parecia que Moisés era o grande craque e Gérson um jogador mediano.

Ainda no primeiro tempo, Gérson estava no círculo central de costas para a defesa alvinegra, preparado  para receber um passe da zaga são-paulina, quando Moisés disparou em direção a Gérson, dando um carrinho por trás. Gérson, com a percepção que só os grandes craques têm, sentiu que Moisés chegava ao mesmo tempo que a bola e com um passo para a direita e com um sutil toque na bola com o pé esquerdo, saiu e tirou a bola da direção de Moisés, que passou direto como um ônibus lotado, depois de alguns segundos de um silêncio ensurdecedor, o Maracanã explodiu em aplausos e gritos de “Gérson, Gérson, Gérson”, vindos da torcida alvinegra. Naquele instante o amor à arte, ao futebol e ao ídolo, falou mais alto. O zagueiro Moisés, durante bom tempo da partida, quando tocava na bola, era vaiado pela sua própria  torcida.

Ao final da partida, Gérson se dirigiu à torcida organizada do Botafogo, comandada pelo saudoso Tarzan e foi aplaudido de pé. Apesar de se declarar torcedor do Fluminense, Gérson tem demonstrado muito amor, muito carinho e muito respeito ao Botafogo, fazendo com que muitos duvidem que ele seja tricolor. Eu aproveito a crônica de hoje, para mais uma vez, cinquenta e dois anos depois, me penitenciar, diante do meu velho ídolo, por ter sido um dos que o vaiaram, naquela noite de 1970, no Maracanã, mas que também, o aplaudiu reconhecendo o valor, o talento e a dignidade de Gérson de Oliveira Nunes, depois de Valdir Pereira o ‘Didi’, o mais talentoso camisa 8 do futebol brasileiro.

Alfredo Melo

Alfredo Melo é uma enorme criatura no sentido literal, na bondade, no caráter e no conhecimento profundo do futebol e das coisas boas da vida, inclusive pratos deliciosos. Ah, tem também a paixão pelo Botafogo cada dia maior...